terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Na calçada

.
.
.
Uma rua sem nenhuma vaga para estacionar, porém era uma rua sem tráfego ligando duas avenidas super-movimentadas.
Estas duas avenidas tinham o trânsito totalmente engarrafado.
Nesta rua havia ainda dois edifícios com salas comerciais.
Eu estava na calçada, fumando e processando meus pensamentos.
Passa por mim um garoto e uma garota, aparentemente entre 14 e 16 anos:
- Eu já fui no SP Market, no Iguatemi, no Paulista, Sta.Cruz, Center 3, Jardim Sul... vários...
- O Ibirapuera...
- É. O Ibirapuera também.

Podia sentir o cheiro de chiclete de tutti-fruti indo embora no ar assim que as vozes ficavam menos audíveis. Ao fundo, o trânsito ainda parado. Pessoas em pé dentro dos ônibus lotados.
Sem que eu mudasse a posição dos meus olhos-câmaras, vem em minha direção, sentido contrário ao dos garotos, um senhorzinho, baixinho, cabelos ralinhos totalmente grisalhos. Usando um chapéu, uma calça com o cinto no meio da barriga, caminhava lentamente e com uma atenção ao caminhar que chamava a atenção. Nas mãos segurava um grande envelope, aparentemente com exames médicos. Se dirigiu a mim com uma pergunta simples, porém com uma construção intrigante, minimalista, retrô, tão estranha que precisei separar o raciocínio das emoções conflitantes num pequeno instante, parecendo que levara 1 minuto:

- Onde fica a clínica? – disse com uma voz humilde e cansada. Olhinhos azuis, vividos, energia que não pode ser gasta com futilidades.
Depois de superar o estranho estado, respondi:
- Qual é o número do endereço, senhor? – e para adiantar a solução do problema – É o número cem?
- É, é sim.
- Então fica naquele edifício ali.
- Obrigado, filho...

“Onde é a clínica?” Aquele senhor tinha toda a razão em fazer aquela pergunta, segundo sua ótica. Quando ele era jovem, naquela região teria apenas uma clínica e todos por perto saberiam indicar onde ficava.
Ao fundo, o trânsito da outra avenida continuava parado.
.
.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

LCDmania

.
.
.
Lembro-me como se fosse ontem quando vi nas vitrines as primeiras televisões de plasma e LCD. Que maravilha... lindas, modernas, um sonho de tecnologia, ali, à disposição. Era só entrar na loja e comprar, exceto pelo preço que, em média, girava em torno de uns 8.000 reais. Uma porrada.


Naquele momento tinha esquecido que poderia acontecer com esses produtos o mesmo que aconteciam com celulares e computadores. A embasbacação com as TVs era tanta que não podia prever o impacto delas no mercado.


Pois passei a assistir uma novela legal... a da queda dos preços. Aquelas TV que me faziam balançar minha auto-estima, porque aquela compra não cabia no meu bolso, passaram a se aproximar de mim, com seus preços despencando mês a mês. A cada e-mail que recebo dos magazines eletrônicos que infestam minha caixa de entrada, vejo os preços caindo. Todos os dias esses e-mails me dizem “compre, por favor, compre”. Que delícia... Que engraçado... Isso me dá forças pra continuar não comprando!


É como um sentimento de vingança: "Bem feito, tá vendo? Apareceu cara, me esnobou, agora tem que baixar o preço pra me seduzir... Se ferrou, agora eu é que esnobo. Só compro quando ver você se rastejando até mim."

Lei da oferta e procura... E viva a Crise Financeira!





sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Regras Não Ditas

.
.
.
As regras sociais são importantes para tornar viável o convívio entre as pessoas. Aliás, Freud, em seus estudos, chegou conclusão de que as relações sociais, incluindo família, ambiente profissional, etc, formam a principal fonte de frustração geradora de distúrbios psíquicos no homem moderno. Quer dizer, o homem cria regras de convívio que ao mesmo tempo o oprime, alimenta o cão que mais morde.


Quando a gente vê a baderna da sociedade brasileira ficamos clamando por uma mão dura que ponha as coisas no lugar. Parece masoquismo! Tudo bem... mas é necessário. Prefiro correr o risco de ir pra cadeia ao ser pego dirigindo embriagado do que correr o risco de ver minha família vítima de um acidente estúpido no trânsito. A tal da Lei Seca teve uma rápida aderência na sociedade, assim como a Lei Kassab, porque a insanidade da baderna estava escancaradamente num estágio ridículo.


Mas e quanto àquelas regras sociais que não são escritas, aquelas regras que nem mesmo são ditas e regulam nosso convívio em sociedade? Temos uma série delas... muitas seguidas sem o mínimo de reflexão, levando pessoas a cometerem atos estúpidos. Será que se essas regras estivessem escritas numa cartilha, em manuais ou ensinadas na escola, as pessoas teriam a chance de questioná-las?


Bom, vamos fazer um teste. Vamos escrever algumas delas aqui, nua e cruamente, como se fosse uma Lei promulgada pra ver se algo acontece:


“Definimos a classe social de uma pessoa segundo o valor do carro que ela tem”.

A casa pode estar caindo, mas o cidadão usa o dinheiro que não tem pra comprar um carro 0km.







“Quem não tem um celular que disponha no mínimo de uma câmara fotográfica e MP3 player é um pobretão ou desqualificado”.

Para sempre ficar na moda, tem gente que gasta, no mínimo, R$ 1500,00 por ano só em aparelhos. Isso sem falar quando o sujeito compra um Blackberry e usa 1% de sua capacidade.






“Um casal de verdade que deve ser visto como sério é aquele que foi fundado com uma cerimônia na Igreja e promoveu uma recepção social com comes e bebes.”

O quê? Gastar o valor de um apartamento numa cerimônia “completa” de casamento? E o futuro da relação? E o dia-a-dia real da convivência pós-casamento que se inicia geralmente com uma dívida que dura meses , se não anos? Perigoso...









Olha o exagero desses aqui do lado...




“Todas as pessoas legais e de bem com a vida fazem passeios, vão às festas e se divertem todos os sábados à noite”.

E se eu quiser ficar em casa, estarei doente ou não sou bem relacionado?






“Qualquer corpo feminino que não tiver medidas parecidas com a garota da capa da revista Playboy é imperfeito e corre o risco de não atrair mais os homens”.

Nunca vi tantas mulheres bonitas deprimidas como hoje em dia. É fácil escutar a seguinte resposta quando uma mulher escuta a idéia de alguém para por um biquíni: “Ai... eu não... tô gorda... vou parecer um colchão enrolado e amarrado no meio...” ou “Todo mundo vai ver minhas dobrinhas... eu não...”

E você olha e não vê problema algum com o corpo dela.



“Psicólogo não pode ficar nervoso”.

Ué? Eu sou gente também! Quantas vezes eu não escuto ao falar de algum problema meu: “Mas você não é psicólogo?”
Como se eu tivesse que ser a Madre Tereza de Calcutá ou o Frei Damião.



Bem... há inúmeras outras regras não ditas, até bem mais relevantes, principalmente aquelas que regulam como as pessoas devem se comportar segundo a raça, credo e idade.


Vou comer meu pão com ovo e por ração pro meu cachorro, porque se bobear a gente vira gado!